Ossos do Ofício

Publicado em:Mosaico, Publicações, blog- mai 12, 2015 Nenhum comentário

Fernanda Montenegro a nossa consagrada musa, reverenciada como a grande  Dama do Teatro brasileiro, sempre que fala da sua glamurosa profissão prefere, ao invés de ressaltar os célebres acontecimentos da sua carreira, enaltecer o dia a dia, anos após anos de rotina no aprendizado do ofício que fez dela monstro sagrado das artes cênicas.

E é desse trabalho árduo, anônimo, elaborado ao longo de décadas que se constitui o patrimônio da  grande maioria dos profissionais de carreira sólida. Poucos são os agraciados com a sorte do sucesso instantâneo.

Daí me pego a refletir sobre a nossa profissão, a do arquiteto construtor, àquele mestre que, há milênios, erigiu com seus artífices e pedreiros o que se convencionou chamar de patrimônio histórico da humanidade. Quanto tempo de dedicação exclusiva à construção de relíquias elaboradas anos a fio, atravessando gerações, muitas delas chegadas até nós anonimamente, sem o mínimo  reconhecimento tão almejado hoje em dia.

Sempre que viajo e visito as grandes obras arquitetônicas me pego nessa reflexão e fico impressionada como, por maior que seja atualmente o desenvolvimento tecnológico o quanto desaprendemos a construir. Ao invés da humanidade acumular e  armazenar o conhecimento conquistado na experiência árdua do saber fazer, foi descartando tudo em nome do “racionalismo” da industrialização. Não vou aqui negar a socialização dos benefícios da modernidade que exigiram uma simplificação na manufatura desses bens, mas nada justifica o desaprender. Quanto mais o tempo passa, menos sabemos é a grande questão da modernidade ocidental.

Quando adentrei a Basílica de São Pedro em Roma, me curvei diante de tamanha monumentalidade e domínio de técnicas construtivas. Os fachos de luz que penetram pela cúpula, erguida no século XVI, atingindo o altar, os mosaicos dos mármores em arabesco são indescritíveis. Exemplo clássico são as pirâmides do Egito, que construídas a partir de 2700 anos a .C. são hoje, apesar de todo o maquinário e tecnologia existentes, consideradas inexequíveis. Daí me pergunto onde foi parar esse conhecimento?

Muitos dizem que nos porões e “index” da Idade Média. O fato é que perdemos as sete as maravilhas do mundo e muito conhecimento enquanto se aprofunda o abismo entre os detentores de tecnologia e os demais mortais. Abismo intransponível, creio eu.

Para os que trabalham com restauro o desaparecimento de técnicas construtivas e artífices é irreparável pois a cada intervenção precisamos reinventar a roda, sempre com prejuízo para a arte em questão.


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