OSSOS DO OFÍCIO…

Publicado em:Mosaico, blog- jun 04, 2011 Nenhum comentário

Fernanda Montenegro a nossa diva, reverenciada como a grande  Dama do teatro brasileiro, sempre que fala da sua glamurosa profissão prefere, ao invés de ressaltar os célebres acontecimentos da sua carreira, enaltecer o dia a dia, anos após anos de rotina no aprendizado diário do ofício que faz dela esse monstro sagrado das artes cênicas.

E é desse trabalho árduo, anônimo, realizado ao longo de décadas que se constitui o patrimônio da  grande maioria dos profissionais de carreira sólida. Poucos são os agraciados com a sorte do sucesso rápido.

Daí me pego a pensar sobre  a profissão do arquiteto construtor àquele que  há milênios erigiu com seus artífices, mestres e peões o que se convencionou chamar de as Sete Maravilhas do Mundo.

Quantos séculos de dedicação exclusiva à construção de relíquias tecidas anos a fio, atravessando gerações, muitas delas chegadas até nós anonimamente, sem o desejo do reconhecimento instantâneo tão em voga hoje em dia.

Sempre que viajo e visito as maravilhas arquitetônicas de várias épocas  fico impressionada como, por maior que tenhamos alcançado o desenvolvimento tecnológico, desaprendemos as antigas formas de construir.

Ao invés da humanidade acumular e  armazenar o conhecimento conquistado na experiência árdua do saber fazer, foi descartando tudo em nome do “racionalismo” e do comprar pronto.

Tudo bem que a socialização dos benefícios da modernidade exigiram uma simplificação na manufatura desses bens( industrialização), mas nada justifica o desaprender. Quanto mais o tempo passa, menos sabemos fazer é a grande questão da modernidade ocidental.

Quando penetrei na Basílica de São Pedro em Roma, me curvei diante de tamanha monumentalidade e domínio de técnicas construtivas. Os fachos de luz que penetram pela cúpula, erguida no século XVI, atingindo o altar em baldaquim, os mosaicos de mármores em arabesco são indescritíveis.

Exemplo, também, clássico são as pirâmides do Egito, que construídas a partir de 2700 anos a .C. são hoje, apesar de todo o maquinário e tecnologia existentes, consideradas inexeqüíveis. Onde foi parar esse conhecimento?

Muitos dizem que nos porões e “index” da Idade Média. O fato é que continuam sete as maravilhas do mundo antigo, enquanto se aprofunda o abismo entre os detentores da tecnologia e os demais mortais. Abismo intransponível creio eu.

Para os que trabalham com restauro o desaparecimento de técnicas construtivas e artífices é irreparável pois a cada intervenção precisamos reinventar a roda, sempre com prejuízo para o bem em questão.

Por isso iniciativas como as oficinas escolas, parceria entre o IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional com as prefeituras serão sempre bem vindas, pois além de resgatarem estas antigas técnicas, formar novos artífices é imprescindível, além do que, profissionalizar jovens é tudo num momento em que fala-se em apagão de mão de obra.

Só para encerrar outro dia estive no Palacete Mourisco em Manguinhos com meu marido que me olhou e perguntou matreiro:

- Já pensou detalhar  tudo isso?


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