Inteligência Artificial

Publicado em:Mosaico, blog- abr 10, 2011 Nenhum comentário

Cinema sempre me emociona muito, mas poucos filmes me tocaram tão profundamente quanto Inteligência Artificial de Steven Spielberg. Já assisti diversas vezes e em todas elas desmoronei.

Ao mesclar robótica, a fábula de Pinóquio e o desejo do amor materno, Spielberg atestou sua genialidade enquanto cineasta e grande contador de estórias surpreendentes que nos contaminam do início ao fim.

O drama do menino “meca”, David, criado para amar a mãe que o programasse, a dor da descoberta da sua diferença, (sim ele não era humano e único como qualquer menino), e a sua obstinação de esperar uma eternidade por um dia de felicidade, onde finalmente foi acolhido no doce colo materno, vai no cerne de um dos sentimentos humanos mais profundos: o abandono!

Se é assim no cinema, imagina o estrago na formação da personalidade e psique das nossas crianças, as da vida real, abandonadas nas creches e semáforos das cidades brasileiras. Será que haverá alguma chance para elas? Que personagens urbanas surgirão criadas na adversidade da desestruturação familiar, ausência de escola, afeto, parâmetros humanísticos?

Um número a cada dia crescente e que faz a fama do país no exterior, além de Ronaldo Pelé e samba. Sim, também somos conhecidos lá fora pelos meninos da Candelária, referência ao extermínio dos meninos de rua  ocorrido no Rio em 1993. Triste fama, essa nossa, que já nos rendeu  dramas  e belíssimas músicas como Pivete e Brejo da Cruz.

E quase todo mundo tem alguma estória para contar.

Quando trabalhávamos no centro de Aracaju, tínhamos escritório por lá, conheci no sinal um menininho lindo de oito anos, moreno de cabelo loiro encaracolado e dentes super brancos que todo dia me pedia: -Tia me dá uma poly? (Poly para quem não sabe é uma lapiseira de desenho que trabalha com grafite). No corre e corre eu sempre esquecia da poly e ele lá inflexível me pedindo uma.

O tempo foi passando e ficamos amigos, ele continuou pedindo a poly e acabou ganhando conselhos e uma escova de dentes. Era flagrante o estrago que os maus tratos da rua já faziam no lindo garotinho da poly. Mudamos de escritório e fomos encontrá-lo, tempos depois, em outro cruzamento nas Avenidas Treze de Julho com Saneamento. Já não pedia mais poly e sim dinheiro para voltar para casa e havia perdido o viço.

Novamente a vida e as alterações no trânsito da cidade modificaram nosso trajeto e anos depois reencontramos o Rafael, este é o seu nome, num domingo a noite, e já com dezessete anos. Um rapazinho limpador de pára brisa. Quando ouvi o tia já sabia que era ele, que também não nos pediu nada. Para que uma poly a essa altura do campeonato?

Esse é o drama e o futuro das nossas crianças que começa assim e termina na guerra civil carioca, quando são recrutados pelo crime organizado, sua única possibilidade de emprego e acesso a celulares, tênis e outros objetos do desejo.

Mas nem todos assistem impassíveis ao desenrolar dessa triste estória e pipocam no país  projetos de inclusão dessas crianças em programas profissionalizantes com a aprendizagem de ofícios, muitos deles através da arte que é um dos melhores atalhos para ascensão social. Basta olhar a trajetória de vários dos nossos artistas.


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