A Cidade Ideal!

Publicado em:Mosaico, blog- fev 23, 2011 Nenhum comentário

Não li Thomas More, mas de utopias entendemos. Afinal sonhávamos que “the war is over”, teóricos da sociedade utópica que Corbusier sonhou, Lúcio Costa planejou… Porém assistimos incrédulos, há quatro décadas o crescimento tresloucado das megalópolis do planeta tendo como  clímax a derrubada das torres gêmeas.

Confesso que tremi. Dá um frio na barriga só de imaginar o horror!

Trememos nas bases quando nos falam do prumo do Maria Feliciana, torre altíssima no Centro de Aracaju, ou lembramos do elevado Paulo de Frontin, sem falar do Edifício Palace do Sérgio Naya .

E nos perguntamos o porquê desse modelo de cidade? Até quando vamos construir ratoeiras humanas? O que serão dessas estruturas de concreto daqui a cem anos, duzentos anos? Quanto tempo nos darão, os construtores, de garantia?

É verdade que as grandes cidades com suas torres modernas, símbolo de poderio tecnológico, sempre povoarão o imaginário humano. Afinal, quem não se seduziu por Time Square?

Nunca vou esquecer quando meu pai nos levava aos domingo pela manhã nas Avenidas Rio Branco e Presidente Vargas no Rio, para ver aqueles edifícios altíssimos que nós olhávamos extasiados. Então lembro das cidades em que vivi!

Aos sete anos fomos de Lagarto para o Rio. Além do choque cultural e das delícias do anonimato… Botafogo, Ipanema! Dia de Cosme e Damião crianças correndo pelas ruas de porta em porta ganhando doces. Eram os idos de sessenta e sete com seus festivais de música, passeatas, sequestros e a primeira copa do mundo, 1970, ninguém esquece … Depois vivi a Aracaju dos anos setenta, Rio e  São Paulo nos oitenta, Salvador e Aracaju nos noventa respectivamente..

Mas jamais esquecerei  de Ipanema e  Arpoador, bossa nova, rock e  Circo Voador. Como dizia o Jobim todos deveriam ter o direito de pelo menos uma vez na vida morar em Ipanema.

Mas adentrei o terceiro milênio vivendo em Aracaju, um privilégio e  sem dúvida alguma o tamanho ideal de cidade. O futuro de lugares como Rio, São Paulo e até, quem diria Nova York  já conhecemos.

Porquê  não damos, então, uma guinada de 180 graus e optamos  pela a cidade  mais humana, vocação intrínseca da invenção?

Quando penso Aracaju lembro da Rua da Frente, vou do Porto D’Antas ao Mosqueiro. Se quero ver os amigos vou comer caranguejo na Atalaia, caminhar pela praia, passear no comércio. Ir do Bairro São José ao Mercado tendo o luxo de ir a pé ou de bicicleta.

Edgard Graef em “CIDADE UTOPIA” diz que  a principal função das cidades é propiciar encontros, que sem essa possibilidade a cidade fenece. Sem o bairro, a vizinhança, os amigos, a escola e a praça que graça a cidade tem?

Outro pensador urbano, Carlos Nelson, nos conta apaixonado em “QUANDO A RUA VIRA CASA” a apropriação da rua pela população  como extensão da própria casa, e nós saudosistas lembramos das cadeiras nas portas à noite, antes do advento da televisão.

Ele teorizava ainda, em diversos textos, sobre a inabilidade de usufruir as ruas, que terão os nossos futuros cidadãos criados, hoje, nas redomas de vidros dos condomínios fechados e shopings centers.

Enquanto os mineiros se reúnem nos clubs da esquina, os brasilienses se  exasperam  pela cidade projetada para automóveis com suas avenidas de difícil travessia Niemeyer tira um sarro: “Não há uma rua para se caminhar, encontrar um amigo ao acaso. O que eu gosto mesmo é do Rio. Gosto daquela confusão, de todos aqueles problemas. A vida é assim.”

É, existem modelos a perseguir, mas a cidade  precisa urgentemente resgatar a sua dimensão humana. O que podemos fazer? Questionam os incautos: – A violência urbana existe e nas mais perversas formas. No terceiro mundo assaltos, sequestros, e no primeiro homens bombas.

Mas será que o problema é mesmo das cidades? Um dos seus malefícios inevitáveis, o outro lado da moeda do seu crescimento? Ou apenas reflexo da exclusão social, racial e religiosa, da má distribuição da riqueza que as transformou em local de risco?

E assim prosseguimos pensando:

Quem nasceu primeiro o ovo  ou a galinha?


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