Revista AU- Restauração do Mercado Municipal de Aracaju

Publicado em:Publicações, Redescobrindo Sergipe, blog- dez 21, 2010 2 Comentários
Revista Au | Edição 105

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Restaurar, segundo o Novo Aurélio, significa obter de novo o domínio, recuperar, reconquistar, reaver. Foi o que se desejou com o projeto de restauro do Mercado

Municipal de Aracaju, no Estado de Sergipe: devolver à população um dos pontos mais característicos e tradicionais da jovem capital sergipana, que hoje conta com cerca de 500 mil habitantes.

Da década de 1940 aos anos de 1990, os mercados populares passaram por transformações devido ao surgimento dos shopping centers e das redes de supermercados. Mas, para muitas regiões do Nordeste, o mercado ainda constitui a “alma” da cidade, que pulsa pelo vai-e-vem dos feirantes, o desafio de repentistas, o pregão de mercadorias e o aroma de temperos, iguarias e frutas. “Além da qualidade arquitetônica das edificações, convém ressaltar a importância sócio-econômica dos mercados que, com o advento dos supermercados e lojas de conveniência, passaram à categoria de pontos pitorescos ou folclóricos”, lembra a arquiteta Ana Luiza Prata Libório, responsável pelo projeto de restauro e reciclagem do complexo comercial do novo mercado de Aracaju, concluído no final do ano 2000.

Diplomada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1983, Ana Luiza retornou a Aracaju em 1985, quando abriu seu escritório de arquitetura com o paulista Gândara Junior, a carioca Sheila Trope e o capixaba Osiris Souza Rocha, já falecido. Ana Luiza tem cursos de especialização em Conservação e Restauração de Monumentos e Conjuntos Históricos e também em Metodologia e Projetos de Desenvolvimento Urbano.

Resultado da tese desenvolvida durante o curso de especialização, na Bahia, a proposta de restauro do Mercado Municipal de Aracaju teve como objetivo principal resgatar a paisagem urbana e arquitetônica típica do comércio do início do século 20 e, com isso, recuperar e otimizar um dos pontos mais simbólicos e ativos da capital sergipana, que vive em pleno processo de abertura turística.

A área de influência das atividades do Mercado Municipal, próximo ao antigo porto da cidade, ponto de escoamento da produção de cana-de-açúcar do Estado, carrega marcas do tempo. “Ali”, ressalta Ana, “se concentram edificações representativas da própria evolução da cidade”. Na década de 1920, Aracaju se consolida como a nova capital do Estado de Sergipe, em substituição à cidade de São Cristóvão.

Com a mudança, surgiu uma série de construções que hoje formam o acervo ou patrimônio histórico edificado da cidade. O início da ocupação da área onde se encontra o mercado data também dessa época. O prédio do Mercado Antonio Franco, com a torre do relógio no pátio interno, em estilo eclético, além do edifício da Associação Comercial de Sergipe, primeiras construções do local, surgiram em 1926. Em 1947 inaugurava-se o Mercado Auxiliar Thales Ferraz, em estilo neocolonial, com um grande pátio externo e arcadas. Por fim, há o Mercado Leite Neto, que foi demolido devido à reurbanização da área. A torre do Antonio Franco, com sua imagem industrial, teria sido construída pelo engenheiro Thales Ferraz, que estudou na Inglaterra e, ao voltar, criou uma série de vilas operárias na cidade.

O Mercado Municipal de Aracaju era, assim, um complexo formado por essas três edificações, sem falar de uma intricada rede de barracas de alvenaria e madeira, que se espalhavam pelas áreas adjacentes, obstruindo o trânsito e a circulação de pedestres, trazendo, como conseqüência, a degradação de uma das áreas urbanas e ambientais mais bonitas da cidade. As edificações mais expressivas do conjunto, o neocolonial Mercado Thales Ferraz e o eclético Mercado Antonio Franco foram restaurados – ou reciclados – como pontos de atração turística e referências históricas de Aracaju.

Utilizando materiais convencionais, a equipe coordenada por Ana Luiza procurou fazer um projeto pragmático, adequado às necessidades do programa e às condições econômicas locais. A administradora estadual e a construtora responsáveis pela obra optaram pelo jateamento e substituição de grande parte do reboco original das edificações, que foi refeito com concreto. Em função disso, a equipe de arquitetos decidiu manter o amarelo-ocre da caiação do Mercado Antônio Franco. Os frisos e elementos decorativos foram pintados de branco-neve conforme recomenda o receituário eclético.

A obra de restauro, planejada em etapas, foi executada com o mercado em funcionamento. Após a transferência dos feirantes, a ocupação de ruas, largos, calçadas e da margem do rio Sergipe, o Leite Neto foi demolido. O resgate do potencial paisagístico da área do Mercado implicou, também, a sua ampliação, com a construção de um novo mercado. Na construção, foram incorporados dois galpões abandonados e os antigos Moinho Sergipe e Armazém do Trigo.

Além disso, foram construídas duas praças cobertas interligando o conjunto ao frigorífico e ao hortifrutigranjeiro, surgindo, assim, o complexo Mercado Novo Albano Franco, que se transformou num autêntico shopping popular da economia informal. Ali, pode-se encontrar produtos característicos da região, como bolos, biscoitos, tapioca, jenipapo, ervas, fumo-de-rolo e muito caju, sem contar as lojas de couro e artesanato e os restaurantes com pratos típicos da culinária sergipana, incluindo a moqueca de camarão, a galinha-de-capoeira, a carne-de-sol e o pirão de leite.

O projeto de revitalização da área atingiu outras edificações. Assim, a equipe restaurou a sede da Associação Comercial de Sergipe, o edifício Macêdo e o antigo Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Também as fachadas do entorno sofreram intervenções. “O tratamento paisagístico mais o saneamento resultaram no resgate da memória e da qualidade ambiental, interferindo no microclima do centro da cidade e na auto-estima da população, que pôde reencontrar seu passado”, avalia a arquiteta.

Ao mesmo tempo, o redirecionamento do fluxo de pedestres, com a transferência da feira livre e de todo o comércio informal para o Mercado Novo, aliado à implantação do sistema de transporte urbano na região do antigo porto, possibilitou a recuperação de áreas livres para os pedestres. O ponto central das intervenções, portanto, segundo Ana Luiza, foi a otimização do patrimônio arquitetônico e da infra-estrutura urbana ali existentes.

O trabalho de restauro das edificações não seguiu nenhum critério ortodoxo, conforme se desejava. “Na metodologia de restauração de edifícios ecléticos no Brasil ainda existe muita experimentação, uma vez que a arquitetura eclética foi por muito tempo relegada, e todo o estudo e desenvolvimento de tecnologias foram canalizados para a arquitetura colonial. Só a partir dos anos de 1980 começam a aparecer as primeiras experiências nesse campo. E, aqui, no caso de edificações com estilos tão diversos, não seria diferente”, comenta Ana.

A qualificação urbana resultante do projeto implicou, entre outras intervenções, a incorporação da área do antigo porto ao tecido urbano central, a integração do mercado com os terminais de transporte coletivo por meio de passarelas, a integração dos transportes hidroviário, rodoviário e ferroviário, além da construção de estacionamentos para caminhões de carga e carroças e a construção de uma grande praça central. E, principalmente, o resgate da paisagem das margens do rio Sergipe, onde se encontra a famosa Ponte do Imperador, uma espécie de ancoradouro construído em 1859 para o desembarque de Dom Pedro II quando de sua visita a Sergipe.

Equipe técnica
Projeto de restauro: Ana Luiza Prata Libório, Sheila Trope, Gândara Junior e Osiris Souza Rocha

Desenhos: Wilson Noya e Genilson Silva
Ilustrações e perspectiva: Otaviano Canuto

Fornecedores
Revestimentos e pintura: Lunar Tintas, Suvinil e Glassulit; coberturas (telhas): Alcoa; tubos e perfis: Gerdau; revestimento cerâmico: Eliane e Cerâmica Nova Aurora; vidros: Metal Vidros; materiais de construção: D&M


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  1. Responder sonia pedrosa says:

    Maravilha, Ana! Parabéns!
    Que sorte que temos você!
    Grande beijo,
    sonia

  2. Responder Gusto says:

    Só quem conhece Aracaju, sabe da importância da restauração do Mercado. Era uma verdadeira desorganização. Pena que as autoridades não se interessam em conserva-lo como merecido. Um grande trabalho de Ana e equipe.