Descobrindo Aracaju

Publicado em:Mosaico, blog- out 27, 2010 4 Comentários

Desde que em 1924 a “caravana paulista”, capitaneada pelo modernista Mário de Andrade,  empreendeu a “descoberta do Brasil”, que culminou na redescoberta de tesouros arquitetônicos como Ouro Preto e Mariana, cristalizou-se no imaginário nacional a ideia de que o nosso patrimônio histórico restringia-se à arquitetura colonial.

A igreja barroca, a casa de câmara e cadeia, o paço municipal, enfim, os grandes monumentos e cidades do período colonial foram exaustivamente estudados, reconhecidos como o nosso “patrimônio histórico” e passaram a ser objeto de preservação.

Tal fato pode ser constatado analisando-se a lista de monumentos tombados pelo IPHAN, nos seus primórdios, e os programas do governo federal sempre voltados para o Brasil colônia, a exemplo do Programa Nacional de Cidades Históricas.

Neste cenário assistimos ruir, no século XX, face a pujança da arquitetura modernista impulsionada pelo milagre econômico brasileiro, diversas áreas centrais de cidades, principalmente durante as décadas de 60 e 70, que na sua maioria ecléticas, não se enquadravam nos cânones estabelecidos pelo IPHAN.

Foram inúmeros os casos de demolição de monumentos e conjuntos urbanos ecléticos inteiros, apesar de haverem sido em seu tempo sinônimo de modernização.

E justo por essa característica de novidade e utilização abrangente de elementos artísticos de outros estilos, é que o ecletismo foi menosprezado durante muito tempo pelos ideólogos modernistas como uma mistura de estilos sem valor intrínseco.

Apenas na década de 80, com a chegada ao Brasil do movimento pós moderno, o ecletismo vai ser revisitado com distanciamento crítico. É o fim da ortodoxia modernista que consagrou a história colonial. Só então, o ecletismo passa a fazer parte das políticas preservacionistas e perde o cunho de arquitetura de mau gosto.

Em Sergipe não poderia ser diferente e toda a política de preservação desenvolvida, seja de âmbito federal ou estadual, só contemplava as nossas cidades ditas “históricas” como São Cristóvão (antiga capital) e Laranjeiras, consideradas por muitos o nosso “verdadeiro” patrimônio arquitetônico; e alguns monumentos em municípios como

Enquanto isso a jovem Aracaju, estigmatizada, cresceu entregue a própria sorte, esquecida pelos órgãos de preservação e relegada quanto ao valor histórico de suas edificações ecléticas. Esta situação, no entanto, não era apenas fruto do acaso, pois para entender Aracaju e sentí-la é fundamental assimilar o espírito do novo, do moderno.

Nascida sob a égide do progresso, como cidade planejada, Aracaju deixou para traz o passado do Brasil colônia de ruas tortuosas, casas mal ventiladas, iluminadas… Sua fundação coincide com a difusão pelo mundo das descobertas industriais com novos produtos, que exigiam racionalidade, modernidade…

Construída com a perspectiva de ser a capital moderna da nova província, assenta-se, então, a cidade na parte plana do sítio o que facilitou a implantação do tabuleiro de xadrez, fundamental para a utilização das novas tecnologias de infra-estrutura urbana.

O povoado de Santo Antônio do Aracaju, na colina, foi preterido, portanto, pelas suas características coloniais, além do que a estratégia de defesa por altura já estava superada e se prenunciava a libertação dos escravos e a proclamação da república, numa fase de grandes mudanças econômicas e sociais, e principalmente de mentalidade. Surge o homem moderno no Brasil!

Com essa vocação de cidade focada no futuro, capital de um estado que vai enfim crescer, se desenvolver e imbuídos da síndrome de modernidade não reconhecemos, a princípio, nosso patrimônio edificado como objeto de política de preservação e assimilamos  a ideia de que Aracaju não tinha patrimônio histórico. Afinal de contas, não possuíamos velhos sobrados coloniais e as “casas velhas” eram de valor discutível…

Apenas com a revisão crítica do ecletismo e dos conceitos de bem cultural é que nossos órgãos de preservação atônitos perceberam o imenso patrimônio que a cidade possuía.

Em 1984, marco zero da política de preservação da memória da cidade, é proposto o tombamento de vários prédios, os mais “importantes”, num verdadeiro pacote que atualmente constitui  o nosso “Patrimônio Histórico” preservado. Esforço homérico resultado do trabalho incansável de historiadores e intelectuais, membros do Conselho Estadual de Cultura, que naquele ano tombaram diversos imóveis, reconhecendo legalmente a sua importância para a preservação da nossa memória urbana.

É certo que nesse pacote foram tombados somente  prédios públicos, uma vez que o estado foi grande construtor do início do século, ficando os processos de edificações privadas arquivados, o que levou ao sacrifício jóias raras da arquitetura sergipana como a mansão do Dr. Augusto Leite que depois de muitas reviravoltas no seu processo de tombamento por fim sucumbiu aos interesses imobiliários. Muitos choram até hoje a demolição do castelinho da Avenida  Barão de Maruim.

Para reparar o dano, anos depois, tombaram duas outras mansões a dos Rollemberg (atual sede da OAB) na Rua da Frente e a da Praça Camerino (atual sede do IPHAN), também importantíssimas  enquanto símbolo das majestosas residências aracajuanas. Mas aí os tempos já eram outros…

Apesar dos avanços nos últimos anos a atuação dos órgãos ainda pode ser considerada pontual voltada à monumentalidade, onde a preservação dos conjuntos arquitetônicos é esquecida, mesmo tendo Aracaju um significativo acervo que resistiu as transformações urbanas.

Com o crescimento da cidade para o sul, muitos deles, ao norte, permaneceram íntegros. São exemplos representativos a colina do Santo Antônio, o Bairro Industrial com seus palacetes de veraneio e o que resta das vilas operárias; as residências modernistas do bairro São José e Rua da Frente, as casa de veraneio de Atalaia, o conjunto das  Praças Fausto Cardoso, Almirante Barroso e Parque Teófilo Dantas, o calçadão da João Pessoa, e a área de entorno do Mercado Municipal de Aracaju.

Nesta área principalmente concentram-se a maior parte das edificações preservadas, onde monumentos como o Mercado Antônio Franco, o Thales Ferraz, a Associação Comercial de Sergipe, o Edifício Macêdo e o antigo Colégio Nossa Senhora de Lourdes, este bastante danificado, integram-se harmoniosamente a um expressivo conjunto de  arquitetura  vernacular  .

Mudaram os tempos, decretaram o fim da história e vivemos hoje a famosa crise da modernidade. De modernos passamos a  ‘post moderns’, e parafraseando o comercial de TV  está na hora de rever conceitos. Aracaju já não é mais uma menina, afinal cento e cinqüenta e oito anos são cento e cinqüenta e oito anos de história, outro conceito que necessita ser revisto.

Na verdade o tempo todo fazemos história, uma história cotidiana que merece ser preservada. Em menos de vinte anos vimos a máquina de escrever virar peça de museu. Tudo que usamos e construímos, hoje, em breve constituirão o nosso acervo.

E como  nos ensinam os sábios os erros cometidos são a melhor fonte de aprendizado. Aracaju comemorou em 2005 seu Sesquicentenário, desde lá aguardamos a revisão do seu Plano Diretor.

Taí uma boa oportunidade para rever os tais  conceitos,  abandonar a política pontual de preservação e presentearmos a cidade protegendo-a legalmente, no Plano Diretor com foco na sustentabilidae,o que implica a reutilização dos conjuntos que contam a nossa história, fazem a delícia dos saudosistas e imprimem qualidade de vida ao cidadão.

Coincidências não existem tudo é uma questão de sinergia!


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  1. Responder Lourdes says:

    Bravo Ana!!

  2. Responder Marcos Venicio says:

    Prezada Ana
    Apaixonado por essa linda cidade e mais ainda por seus prédios antigos, não resisti a tentação de copiar a foto desse seu maravilhoso artigo. Queria pedir licença para publicá-la em meu blog, em futuro post sobre Aracaju antiga (endereço do blog acima).
    Grato.

  3. Responder Aline says:

    Olá, muito interessante a matéria. tenho 25 anos e estudo atualmente Arquitetura aqui em Aju e desde criança ficava observando tudo aqui na cidade rs, mas a respeito por exemplo da gente fazer uma pesquisa sobre alguma dessas casas antigas não há muita informação ou quase nenhuma. Deveria existir um meio de termos acesso à história do lugar, juntamente com a parte arquitetônica, muitas por aqui estão abandonadas.