A Retomada dos Centros

Publicado em:Mosaico- out 27, 2010 Nenhum comentário

O crescimento acelerado das cidades e a conseqüente queda da qualidade de vida nos centros ocasionou, nas últimas quatro décadas, um processo de esvaziamento das áreas comerciais mais antigas.

Essa tendência iniciou com lançamentos no mercado imobiliário de diversos empreendimentos  em áreas ditas “nobres”, livres das mazelas das áreas centrais e  consagrou-se na época dos governos militares, com a construção na periferia dos campus universitários, centros administrativos e grandes conjuntos habitacionais.

O deslocamento no território urbano da classe de maior poder aquisitivo arrastou consigo o capital financeiro, prestadores de serviços, profissionais liberais e alguns serviços institucionais, dotando várias cidades de um segundo centro de negócios, consolidado ao longo dos anos com a construção de hiper mercados e “shoppings centers”.

Observamos esse processo em diversas cidades brasileiras, como São Paulo com o surgimento da AV. Paulista, em Salvador a Pituba e em Recife na Boa Viagem.

Aqui em Aracaju a expansão do centro comercial até a Av. Francisco Porto (Saneamento) foi puxada pela a criação do Jardins, mais recentemente culminou com a incorporação do Garcia crinado uma nova centralidade.

O esvaziamento de tradicionais áreas comerciais das cidades detona um processo de degradação que pode resultar em dois tipos de fenômeno. Decadência econômica  com o conseqüente arruinamento do patrimônio edificado. Estas edificações em ruínas são utilizadas como cortiços e habitações marginalizadas. Ou então a utilização caótica e desordenada do espaço urbano com atividades lucrativas mescladas ao comércio informal. Este era o caso do nosso Mercado Municipal.

Finalmente,  após décadas  de modelo  desenvolvimentista com o crescimento periférico das cidades,  estimulados por investimentos privados em novas áreas que exigem do poder público a implantação de infra-estrutura urbana, inicia-se timidamente  outro movimento.

O milagre econômico acabou e deixou o país com enorme dívida externa de custo social imensurável.Com o fim da ditadura, na década de 80, e suas obras faraônicas surgiram os movimentos populares introduzindo na  agenda  política a cidadania e a retomada do espaço urbano.

Neste momento político com o novo ciclo de econômico e o crescimento absurdo da frota urbana repensamos o processo de periferização das cidades e começamos a nos voltar para dentro, com a reutilização, reciclagem e valorização do patrimônio urbano e arquitetônico existente.

Já nos anos 90 o surgimento de movimentos ambientalistas e preservacionistas, a cultura, agora, com reconhecido valor mercadológico para o turismo aponta para a busca da identidade, da fisionomia das cidades.

Segundo estudiosos do processo este será o grande desafio desta década: a redescoberta do caráter das cidades. O que uma cidade tem que a diferencia das outras.

E o melhor retrato de uma cidade, é sem dúvida sua  área central, onde se localiza o seu  centro fundacional, sítio geográfico privilegiado escolhido a dedo para o início da aventura  urbana.

É lá onde está contada a sua história, através do patrimônio edificado, onde foram realizados vários investimentos públicos e, via de regra, onde se encontra a sua melhor paisagem urbana.

Sob essa ótica várias cidades no exterior  vêm realizando programas governamentais de revitalização de áreas centrais degradadas. No Brasil tivemos os exemplos do Corredor Cultural do Rio e de Porto Alegre, o Viva Centro de São Paulo, a restauração do Pelourinho em Salvador e em Pernambuco o Recife Antigo. Aqui fizemos a Restauração do Mercado Municipal.

Por enquanto restrita ao âmbito comercial precisamos continuar e ampliar a experiência a políticas habitacionais. Segundo o italiano Paolo Portoghesi, um dos principais teóricos da arquitetura em atividade: “as pessoas que estão contentes com o lugar em que vivem são quase todas moradoras de cidades antigas –ou usufruem em parte os benefícios de centros históricos de cidades antigas”.

Voltando a Aracaju encontramos na sua parte mais antiga uma paisagem ribeirinha relativamente preservada. Uma Aracaju bucólica com resquícios de “Bôlo de Noiva”, como diria Mário de Andrade.  A Aracaju da Rua da Frente, do Bairro Industrial , da Colina do Santo Antonio… Do domingo na Praça Fausto Cardoso e Natal no Parque. Deliciosa para morar.


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