A Força da Grana…

Publicado em:Mosaico- dez 27, 2010 Nenhum comentário

Lá pelos idos de 1982 quando o processo desenfreado de demolições atingiu em cheio os antigos casarões da Av. Paulista uma frase pintada numa delas, evocava uma das grandes contradições do capitalismo:

“- A força da grana que ergue e destrói coisas belas”.

Pinçada com precisão da obra poética de Caetano Veloso essa frase traduz cenas inexplicáveis que assistimos até hoje nas cidades brasileiras, onde no processo de reconstrução contínuo dos lotes nada é poupado.

Em Lagarto lembro que me impressionou o caso do Cine Glória que, construído no início dos anos “50”, era um cinema enorme que também funcionava como casa de espetáculo. Construído em estilo “art déco” com todo o requinte possível para um cinema da época, era além de enorme, super charmoso e lembro-me de detalhes marcantes como as arandelas “art déco” e a bilheteria. Era tão grande que em 1971 assisti lá a um show de Roberto Carlos, na primeira fila é claro.

Pois bem, essa casa de espetáculos foi comprada por um banco privado e demolida para construção de sua sede, enquanto que o ex-proprietário adquiriu outro terreno na mesma rua, um pouco mais adiante, e ergueu outro cinema bem menor e inferior em infra-estrutura. Este já virou igreja evangélica e hoje Lagarto necessita de um lugar para espetáculos.

É claro que tudo isso aconteceu durante o processo de decadência das grandes salas de cinemas, mas imagina o prejuízo para uma cidade desaparelhada de espaços como este, o significado dessa demolição? Até hoje pagamos o preço, se houvesse sido reciclado estaríamos sem dúvida em outras condições…

Em Aracaju a coisa não é diferente e assistimos “tombar” diversas relíquias arquitetônicas para dar lugar a áreas de estacionamento ou obras sem a mínima qualidade arquitetônica. Foram várias as demolições que assistimos durante esses anos sendo a mais célebre o casarão de Dr, Augusto Leite nas esquinas da Av. Barão de Maruim com Itabaianinha. Houveram diversas manifestações de pesar e, apesar da resistência popular, nada podemos fazer.

Enfim venceu a força da grana e novamente o poder de um banco, desta vez oficial, inexplicavelmente conduziu os herdeiros a uma demolição clandestina, uma vez que o processo de tombamento  encontrava-se  aprovado, porém não homologado. Uma pena, pois pouco tempo depois, surgiriam conceitos mais avançados e politicamente corretos de refuncionalização de monumentos históricos. Por um átmo de apenas três anos!

Agora deparamo-nos de novo com a mesma questão na mesma avenida Barão de Maruim, quando os últimos casarões ecléticos remanescentes da Aracaju “bolo de noiva” encontram-se a venda. Desejamos que estes tenham melhor sorte com seus compradores. Afinal os tempos são outros.

Um dos grandes problemas das leis de preservação no Brasil é, de certa forma, empurrar herdeiros assustados com possíveis perda de valor de mercado para ações desastrosas e equivocadas, ao invés de instruir para o potencial econômico de um bem histórico. Imóveis antigos são relíquias, jóias raras nos dias de hoje numa Aracaju em expansão.

Além de desejarmos melhor sorte, esperamos dos poderes constituídos e guardiões da nossa memória maior visão e empenho na salvaguarda desses bens, para que daqui há alguns séculos os aracajuanos continuem conhecendo  a arquitetura civil e monumental dos grandes senhores da terra.


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